Gordura
Ingrediente da fertilidade

 
O recado para quem deseja ter filhos, mas vive de dieta — e sem orientação —, vem de pesquisadores da prestigiada Universidade Harvard, nos Estados Unidos. E tem como alvo principal o público feminino que adota cardápios tão restritivos que a gordura, seja ela qual for, passa longe. O estudo, recém-publicado no periódico científico Human Reprodution, da Sociedade Européia de Reprodução e Embriologia, avaliou os hábitos alimentares de 18 555 voluntárias durante oito anos. A constatação dos cientistas: cardápios muito desengordurados estão relacionados à infertilidade. No grupo que só consumia laticínios desnatados, achando que eles proporcionariam toda a gordura necessária para o seu corpo, foram freqüentes diversas manifestações de problemas ovulatórios.
"A gordura participa da produção de hormônios sexuais", explica a nutricionista Isabela Cardoso Pimentel, do Hospital do Coração (HCOR), em São Paulo, que falou justamente sobre a importância do nutriente no Simpósio de Nutrição da Mulher, realizado mês passado no próprio HCOR. "Quando os níveis hormonais estão aquém do normal, a ovulação acaba prejudicada", completa a ginecologista paulistana Valéria Topyla, que também participou do evento. E, se não há ovulação, óbvio, não há a menor probabilidade de engravidar.
Até o mal-afamado colesterol tem papel importantíssimo na fecundação. "Ele é fundamental para a fabricação do hormônio feminino estrógeno", enfatiza o ginecologista e obstetra Rubens Paulo Gonçalves Filho, do Hospital e Maternidade São Luiz, que fi ca na capital paulista. A família das gorduras, ou lipídios, como preferem os especialistas, responde ainda por uma série de funções no nosso organismo. Para começar, o nutriente entra na composição de membranas celulares. "E colabora para o aproveitamento das vitaminas A, D, E e K", enumera a nutricionista Mariana Del Bosco, da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade, Abeso. Ou seja, as gorduras precisam ser vistas com outros olhos, sem tantos preconceitos, já que sem elas o organismo da candidata à mamãe não funcionará a contento para acolher a nova vida.
Quem planeja engravidar não precisa, porém, correr para a churrascaria mais próxima e se acabar na picanha nem lotar o prato de fritura e se fartar de sobremesas cobertas de chantilly. Afinal, o outro extremo leva ao ganho de peso. Infalivelmente. O bioquímico Jorge Mancini, professor da Universidade de São Paulo, ressalta esta que talvez seja a mais famosa atribuição da gordura: "Ela fornece energia". Leia-se calorias — são nada menos do que 9 para cada grama do nutriente.
Parece até contraditório, mas, assim como a falta de gordura prejudica a ovulação, o seu excesso também tem forte relação com a infertilidade. Quando se engorda demais, aumentam os riscos de desequilíbrios hormonais. Isso porque o tecido adiposo, principalmente aquele que se concentra na barriga, é uma verdadeira usina de substâncias que interferem na função das glândulas. "Hoje esse tecido é considerado um órgão endócrino", assinala a nutricionista Mariana Del Bosco.
O acúmulo de células de gordura, ou adipócitos, leva à produção exagerada de um estrógeno pouco eficiente e que é chamado pelos médicos de estrona. Ele é uma espécie de boi na linha do ciclo menstrual. "Bem diferente do estradiol, fabricado nos ovários, que é um forte aliado da fertilidade", compara o ginecologista Rubens Gonçalves Filho.

GESTAÇÃO SAUDÁVEL
Além de procurar manter o peso adequado, quem planeja a maternidade deve comer gorduras, sim. Mas as gorduras certas. "É importante que se prepare para as mudanças que ocorrerão no seu organismo", diz a nutricionista Isabela Pimentel. A consumidora voraz de alimentos ricos em trans ou saturadas dificilmente vai ter seu corpo funcionando 100% bem, o que irá comprometer a saúde do bebê. Isso se ela conseguir engravidar.
Além disso, o elo dessa dupla de lipídios com problemas cardiovasculares — não custa lembrar — já está muitíssimo bem esclarecido. Portanto, quanto mais longe delas, tanto melhor para a gestante. Na gravidez a elevação da pressão arterial é um dos maiores perigos, aumentando a probabilidade de parto prematuro. E, como se isso não bastasse, existem suspeitas de que a trans tenha a ver com a resistência à insulina, ou seja, pode ser o estopim para outro problemão, o diabete gestacional.

POR DENTRO DAS GORDURAS

Conheça os diferentes tipos e faça a escolha certa

POLIINSATURADA
Os ômegas são dessa família de ácidos graxos. O 3 aparece aos montes em peixes como o salmão, o atum e a sardinha, além do óleo de canola. Já o 6 está no óleo de soja. "É importante consumir ambos", avisa a nutricionista Cynthia Antonaccio. Um tem poder antiinfl amatório e o outro está associado com as defesas do organismo. Segundo Isabela Cardoso Pimentel, a ingestão do ômega-3 ajuda no desenvolvimento do feto no caso das gestantes e, depois, contribui para que o leite materno seja de excelente qualidade.
MONOINSATURADA
Talvez o azeite seja seu principal representante, mas o abacate e a noz-macadâmia também são boas fontes. Estudos mostram que o consumo desse tipo de gordura ajuda a controlar os níveis de colesterol e de glicose no sangue. Claro, mesmo sendo benéfi co, não vale exagerar. Lembre-se de que cada grama de gordura soma 9 calorias. Mas, para a nutricionista Cynthia Antonaccio, "esses alimentos não podem faltar no cardápio das mulheres."
SATURADA
Manteiga, chantilly, leite e carne vermelha são alimentos campeões no teor dessa substância gordurosa, associada a encrencas nas artérias e, portanto, a doenças do coração. Peixes e óleos vegetais também contam com ela, só que em pequenas quantidades. Mas, afi nal, a saturada teria alguma boa atuação? "Sim, ela ajuda a proteger nossos órgãos", responde o professor Jorge Mancini. Por isso os especialistas recomendam sua inclusão no dia-a-dia, ainda que com muita parcimônia. "Menos é melhor", dita a regra a nutricionista Mariana Del Bosco.
TRANS
Quando o assunto é fertilidade, ela não deixa de ser a vilã de sempre. A trans, que ainda aparece em algumas margarinas, sorvetes, biscoitos e outros produtos de panifi cação, também é acusada por falhas na ovulação — ou seja, diminui a chance de engravidar. Para gestantes ela é potencialmente perigosa, pois eleva os níveis do colesterol ruim, o que prejudica a circulação nesse período tão delicado.SABOR OLEOSO
Quem passa o dia-a-dia na base do zero gordura, sem um pinguinho de lipídios à mesa, no mínimo está engolindo preparações menos saborosas. É que um dos efeitos dos ingredientes gordurosos é melhorar a textura e enfatizar o gosto das receitas, ajudando a dispersar o aroma dos temperos que botamos na comida. Será que depois dessa você ainda precisa ler a dica? Va lá: coloque uma pitadinha de gordura na panela.

ONDE ELA ESTÁ?
A nutricionista Cynthia Antonaccio conta que uma dieta de 2 mil calorias (em geral a quantidade indicada para uma jovem) deve ter 30% de gorduras, o que equivale a 66 gramas do nutriente. Confira onde ele aparece:

Queijo emmental ........ 13 g
(1 fatia grossa)
Amêndoa .................... 12 g
(10 unidades)
Salmão ....................... 10 g
(1 posta de 100 g)
Manteiga ..................... 10 g
(1 ponta de faca)
Filé mignon ................. 9 g
(1 bife de 100 g)
Abacate ....................... 8 g
(1/2 xícara)
Noz-macadâmia ......... 7 g
(1 colher de sopa)
Azeite .......................... 7 g
(1 colher de sopa)
Margarina ................... 7 g
(1 colher de sopa)
Leite integral ............... 7 g
(1 copo)
Leite semidesnatado . 5,5 g
(1 copo)
Chantilly ...................... 5,3 g
(1 colher de sopa)
Ovo .............................. 5 g
(1 unidade média)

Fonte: Saúde é vital

 


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